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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Midllemarch – Parte 8 (final) – Ocaso e aurora

 


Ah, Dorothea. Dorothea, Dorothea… como és burrinha e estúpida, doce Dorothea. Comparada à gloriosa, imagética e luminosa Dulcineia del Toboso, do astuto Dom Quixote, você não passa de uma ameixa seca, sem gosto. Para você me entender, leitor contemporâneo: Dorothea, que pode ser apontada como a protagonista de Middlemarch, é aquela moça sonhadora, de bom coração, que adora defender os fracos e oprimidos, mas que, apesar de tudo, tem nas boas intenções uma mistura de ingenuidade e hipocrisia. Descrevendo a parte final, você vai entender melhor meus argumentos.

Bom, a parte final começa repercutindo o escândalo envolvendo Lydgate e Bulstrode na morte do Sr. Raffles. Não vou me alongar nos pormenores: acho que, sendo direto sobre o que aconteceu, dá para entender bem a situação. E, sabendo do desfecho, não há por que ficar enrolando - quem quiser os detalhes, que leia o livro inteiro, ora pois.

Para ajudar Lydgate, Dorothea tem a ideia de suprir as mil libras emprestadas por Bulstrode. Assim, ela preenche um cheque para levar ao médico, com o objetivo de quitar a dívida com o banqueiro e permitir que Lydgate encerre qualquer relação com ele. Lydgate, porém, está deprimido por causa da esposa e conversa com Dorothea, que se oferece para falar com Rosy, tentando fazê-la enxergar o quanto é amada pelo marido. O problema é que Rosy está de quatro por Ladislaw, o galã vigarista que engana todo mundo - menos a mim e, no fim das contas, Casaubon.

Mesmo tendo partido, Ladislaw fica arranjando subterfúgios para voltar a Middlemarch toda a hora, sempre com a esperança de reencontrar Dorothea, que, por sua vez, também vive inventando desculpinhas para arrastar o rabo para o amado. Acontece que Ladislaw aparece na cidade e, enquanto está a sós com Rosy, Dorothea chega com a carta contendo o cheque para Lydgate pagar Bulstrode. Ela flagra os dois na sala, deixa o cheque sobre a mesa e vai embora.

Ladislaw e Rosy ficam parados, sem reação. A essa altura, Rosy já enxerga Dorothea como rival - e, vale lembrar, ela judia do pobre Lydgate sempre que pode, enquanto o trouxa segue se arrastando para conseguir o mínimo de atenção da esposa (deprimente!). Diante da situação, Ladislaw fica com raiva - ele sempre fica com raiva por qualquer coisa - e grita com Rosy, como se ela tivesse alguma culpa pelo encontro inusitado. Afinal, foi ele quem apareceu ali (E A CASA ERA DA ROSY, CACETE!), e foi Dorothea quem chegou de surpresa. Mesmo assim, Ladislaw perde o controle e humilha Rosy, que é outra trouxa apaixonada por ele. Com isso, Ladislaw e Dorothea ficam arrasados: ela achando que ele tem algo com Rosy; ele imaginando o mesmo e colocando a culpa na moça, que, na real, não tinha culpa de nada.

No dia seguinte - depois de chorar até adormecer no chão gelado de casa -, Dorothea resolve ir conversar com Rosy para cumprir sua missão de defender Lydgate no escândalo. Aí rola o encontro dramático das duas sirigaitas, mas fica claro que, enquanto coloca Lydgate num pedestal, a real intenção da hipócrita Dorothea é afastar a rival do seu amado Ladislaw. E dá certo: Rosy acaba confessando que também ama o pilantra, mas afirma que Ladislaw está terrivelmente apaixonado por Dorothea.

Enfim, Ladislaw vai atrás de Dorothea e, após páginas e páginas daquela punheta de “ai, eu te amo, mas não posso ficar contigo”, eles finalmente se beijam, e ela decide abrir mão das propriedades de Casaubon para viver na pobreza com o amado (puta que pariu!). Há ainda um monte de pieguice envolvendo o casalzinho mequetrefe - o que só comprova que Casaubon estava certo ao desconfiar da lascívia da esposa e do sobrinho ingrato.

Vou aos finalmentes, contando o destino de cada um dos três casais que protagonizam o romance. Mas, antes, vale contar que Bulstrode é relativamente perdoado pela esposa e, pelo que entendi, os dois passam a viver em outro povoado. O que fica em aberto é a administração do hospital: Bulstrode sai de cena, Lydgate vai para Londres e Dorothea empobrece, de modo que não sobra ninguém para sustentar o tal hospital.

Enfim, vamos aos casais. Fred e Mary são os que se dão melhor. Para convencer Caleb a aceitar a administração da fazenda e, assim, ajudar Fred, Bulstrode passa o terreno para o nome da esposa. Caleb aceita voltar a administrar as terras, que acabam sendo repassadas a Fred, que, com o tempo, consegue comprar a propriedade - aquela mesma que ele sonhava herdar no início da história. Ele e Mary têm quatro filhos homens. Não ficam ricos, mas vivem felizes para sempre.

Lydgate e Rosy vão para Londres, onde ele se torna um médico respeitável, embora tenha de suportar o fardo da personalidade problemática da esposa, que constantemente o diminui moralmente com seu temperamento mimado. Apesar disso, permanecem juntos até a morte dele, aos 50 anos. Depois disso, Rosy se casa com outro médico, descrito como velho e rico. Se não me engano, do casamento com Lydgate ela também ficou prenha de quatro rebentos.

E chegamos ao casalzinho mequetrefe. Sobre eles, o livro não entra em detalhes sobre a vida a portas fechadas, então conto primeiro o que a autora revela e depois completo com a minha imaginação. No texto, Dorothea e Ladislaw também vão para Londres, têm filhos, ele se torna político famoso no Parlamento inglês e ela vira dona de casa. Há menções pontuais - como a raiva inicial de Sir James, que mais tarde aceita receber a visita da cunhada em Middlemarch, mesmo sem gostar dela e do marido -, mas, no geral, é isso.

Agora, minha imaginação: Ladislaw se torna um político fanfarrão, cheio de amantes, que grita e humilha a esposa, às vezes descendo o braço nela. Vale lembrar que, na noite em que ele vai atrás de Dorothea, antes do primeiro beijo, a narradora descreve diversas explosões de raiva dele, do nada. Vejam algumas falas de Ladislaw:

“— É tão fatal quanto um assassinato, ou qualquer outro horror que separa as pessoas — ele explodiu de novo. — É mais que intolerável… ter a nossa vida mutilada por questões tão triviais…”

Aqui, ele chama de trivial o direito de Casaubon de se prevenir daquilo que havia sacado desde o início: que o urubu Ladislaw só esperava sua morte para ficar com o patrimônio e com a esposa. Francamente, sr. Ladislaw…

Quando Dorothea tenta consolar dizendo que a vida deles não precisava ser “mutilada”, ele responde, furioso:

“— Sim, tem de ser — disse Will, raivoso. — É cruel de sua parte falar assim, como se houvesse algum consolo” (p. 821).

Ou seja, ele chama Dorothea de cruel simplesmente porque ela tenta consolá-lo. Todos os sinais estão ali: um sujeito opressor, ciumento, emocionalmente instável, que, depois de casado, provavelmente descarregaria suas frustrações na esposa, inclusive descendo o braço nela, enquanto mantém um harém de amantes.

E, assim, encerro este resumo. Apesar dos pesares, é um livro bom e divertido - quase 900 páginas bem escritas, com ótimos enredos e personagens que dão vida a um povoado imaginário chamado Middlemarch.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Middlemarch – Parte 7 – Duas tentações

 


Esse é o capítulo com a narrativa mais linear e, creio, será o resumo mais curto de todos até aqui. Desta vez, os casais platônicos Dorothea/Ladislaw e Fred/Mary são praticamente deixados de lado, e a história gira quase toda em torno do casal Lydgate, de Bulstrode e do Sr. Raffles.

Em síntese, o cerco financeiro em torno de Lydgate aprofunda a crise no casamento dele com Rosy, que tenta resolver o problema à sua maneira, às escondidas, mas só piora a situação. Um exemplo disso é quando ela escreve ao tio de Lydgate pedindo as mil libras que salvariam o casal financeiramente, e ele responde com uma carta dura, dizendo lamentar que Lydgate estivesse tentando usar a esposa para conseguir um empréstimo. Ao ler a carta do tio, Lydgate perde a paciência com a esposa, que por sua vez, o acusa de não ter avisado que depois do casamento eles passariam por aquilo, fazendo com que o médico se sinta culpado e recuando na discussão.

Sem mais delongas, a situação de Lydgate se cruza com a relação entre Bulstrode e o Sr. Raffles. Este segue atazanando a vida do banqueiro, que continua lhe dando alguma quantia para mantê-lo afastado. Até que o Sr. Raffles fica doente e é levado para a fazenda de Bulstrode por Caleb, que o encontra cambaleando pela estrada. Enquanto delira por causa da doença (resultado de muita bebedeira), ele conta tudo ao operário, que, ao avisar Bulstrode de que um antigo conhecido seu estava doente na fazenda, aproveita para encerrar qualquer tipo de relação profissional e pessoal com ele, partindo do pressuposto de que o Sr. Raffles já havia contado sobre o passado do banqueiro. Como Caleb é discreto, ele não pretende espalhar nada.

Depois disso, Lydgate pede dinheiro emprestado - justamente as mil libras - a Bulstrode, que é rude e se recusa a emprestar, sugerindo que o médico se declarasse insolvente. Lydgate fica arrasado, mas Bulstrode se depara com o Sr. Raffles muito doente e manda chamar o médico. Em resumo, para garantir a simpatia de Lydgate - caso o Sr. Raffles dissesse alguma coisa -, Bulstrode acaba emprestando as mil libras ao médico. Lydgate dá orientações claras sobre os cuidados com o Sr. Raffles, mas Bulstrode, quando a empregada pede permissão para dar uma bebida ao doente (mesmo com a proibição médica), autoriza. Com isso, o Sr. Raffles amanhece morto.

O problema é que, em Middlemarch, antes de adoecer, o Sr. Raffles, já bêbado, havia contado toda a história a um sujeito qualquer, que rapidamente espalha a fofoca (uma grande parte desse capítulo detalha como a fofoca se espalhou). Logo se cria o escândalo: o passado de Bulstrode é marcado por corrupção (incluindo o roubo da herança de Ladislaw), e Lydgate passa a ser visto como cúmplice da morte do Sr. Raffles, em função do empréstimo das mil libras.

Como a peste está se aproximando do povoado, ocorre uma reunião do conselho da cidade para decidir a compra de um terreno que servirá como cemitério coletivo. Antes mesmo do início da reunião, os membros deixam claro que não querem mais Bulstrode no conselho por causa do escândalo, e Lydgate percebe que muitos acreditam que ele tem algo a ver com a morte do Sr. Raffles. O Sr. Brooke estava presente e, ao final, vai conversar com Dorothea, contando tudo. Ela, por sua vez, afirma confiar na inocência de Lydgate.

Agora, faltando cerca de 100 páginas para o fim, eu apostaria que Ladislaw acabará sendo beneficiado pelo escândalo, recebendo dinheiro de Bulstrode e, assim, finalmente se casando com Dorothea. Fred, por sua vez, deve acabar com Mary. A pior situação é a de Lydgate com Rosy, pois, mesmo quitando a dívida, ela não aceita reduzir o padrão de vida de dondoca e eles seguem sem se acertar. Aguardemos as próximas páginas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Middlemarch – Parte 6 – A viúva e a esposa

Quando vi o título desta parte, imaginei que se trataria da transformação de Dorothea, de viúva do Sr. Casaubon, em esposa de Will Ladislaw. Não chega a tanto, pois boa parte do capítulo aborda histórias de outros personagens. Contudo, antes de seguir a ordem da narrativa, faço um breve comentário sobre essa relação entre Ladislaw e Dorothea.

Não pesquisei sobre isso na web, então não sei se esse é um daqueles casais “clássicos” e “queridinhos” da literatura. Ainda assim, acho que este é o casal mais irritante e hipócrita de todos. Primeiro porque Will se coloca como coitado para conquistar Dorothea, que, como temia Casaubon, cai como uma patinha nas armadilhas sentimentais dele. Ele segue se fazendo de vítima, e ela segue sendo a idiota que acredita nas coitadices do nigromante, enquanto todos os outros personagens sacam que ele não vale nada. Mas, pelo que estou percebendo, a própria autora cada vez mais o coloca como uma espécie de “herói honrado” - em breve vocês vão entender por quê.

 

Mas eu - EU! - não esqueci que ele conquista Dorothea à base de manipulação e mentira. Além disso, quando eles conversam cara a cara, ele sente raiva a qualquer resposta negativa dela, o que me faz imaginar que ele seria um daqueles maridos opressores que, em pouco tempo, estaria descendo o braço nela - com o apoio da sociedade oitocentista. Mas deixemos o casalzinho mequetrefe de lado por um momento para falar do capítulo.

Bom, na verdade, este é um dos capítulos mais “lentos”, com muitas cenas secundárias e descrições longuíssimas, e pouco avanço efetivo da história. O que dá para dizer, primeiro, é que Will Ladislaw segue enfiado na casa de Lydgate e, em dado momento, dá a entender que a Sra. Lydgate está gostando dele, mesmo ele sendo apaixonado por Dorothea. Há também um encontro breve entre o casalzinho mequetrefe, mas eles ficam naquela punheta de sempre: “ai, todo mundo me pinta como vilão porque teu marido colocou aquele adendo no testamento, mas eu sou honrado e não vou casar contigo por isso…”, “ai, eu acredito em você, mas você é tão vítima, pois o mundo é mau, está errado, e você é o bem supremo da humanidade”. Como diriam os adolescentes de hoje: não tenho saco pra isso. Ou, como diria Bukowski: tirem a roupa logo e vão foder num quarto ao invés de foder com a paciência do leitor.

Depois, o protagonismo da maior parte do capítulo gira em torno da crise financeira de Lydgate. Rosy perde o bebê ao se encantar com um primo do marido e sair a cavalgar com ele, mesmo contra as orientações médicas. Em seguida, Lydgate é obrigado a confessar para ela que estão falidos e precisam penhorar alguma parte da mobília, o que mostra que a lógica da sociedade do consumo desenfreado - consumir por consumir para manter um padrão de ostentação - é bem mais antiga do que a era das redes sociais. Diante da notícia, Rosy, que é uma dondoca, ameaça sair de casa para voltar a morar com os pais, mas acaba voltando atrás - ainda assim, fica um climão entre os dois, até porque, como comentei antes, há esse indício dela estar afim do galã, pegador casadas, Will Ladislaw.

Ah, e Fred, para poder se casar com Mary, tem a brilhante ideia de trabalhar como peão com o pai dela, Caleb, escapando assim da carreira na igreja. Contudo, a mãe de Mary solta umas indiretas, deixando claro que, se não fosse por ele, Mary se casaria com o Sr. Farebrother, que agora tem dinheiro. Fred se ofende, rola uma cena de ciúmes e tal, mas acabam se acertando, com ele trabalhando para Caleb e alimentando o sonho de casar com Mary.

Mais para o final, há a cena do leilão em que, resumidamente, o Sr. Raffles volta a chantagear Bulstrode e faz insinuações para Ladislaw. Bulstrode, então, acaba contando a verdade para Will - e ei-la aqui: há uns 30 anos atrás, antes de aparecer em Middlemarch, Bulstrode namorou a mãe de Ladislaw, e todos eles estavam metidos em tretas. Pelo que entendi, compravam produtos roubados a preço baixo e revendiam por valores altos. Para escapar disso, a mãe de Ladislaw acabou abandonando a família. A avó dele, uma viúva rica, morreu e, como ninguém sabia onde ela estava, Bulstrode ficou com a herança. Na verdade, só o Sr. Raffles sabia que ela (a mãe de Ladislaw) ainda estava viva, morando com seu filho pequeno, razão pela qual Bulstrode pagou para ele ir embora para a América. Em outras palavras: metade da fortuna herdada por Bulstrode seria, por direito, da mãe de Will; como ela morreu, esse direito passaria a ele. Will, contudo, orgulhoso - e agora dá para entender por que eu disse antes que a narradora o coloca na condição de herói honrado -, recusa o dinheiro oferecido por Bulstrode, alegando que ele tem origem na receptação de produtos roubados (ai, que honrado esse fanfarrão!).

Ou seja, aqui ele poderia ter recebido o dinheiro e ficado com Dorothea, mas a narradora o coloca, como eu disse, na posição de super-honesto, mesmo depois de ele ter mentido e manipulado Dorothea para conquistá-la enquanto ela era casada. E ela, por sua vez, se apaixonou furtivamente pelo Sr. Casaubon, casou com ele contra a vontade de todos, para ceder ao primeiro galanteador barato que aparecesse. Como diriam as senhorinhas de Middlemarch: lamentável. Resumindo, portanto, o Sr. Raffles permanece nas redondezas e segue com Bulstrode nas mãos, enquanto o banqueiro se sente aliviado por saber que Ladislaw não vai espalhar a fofoca pela comunidade.

Na cena final, há mais um encontro entre Will e Dorothea antes de ele partir do povoado - e, a essa altura, já chegou aos ouvidos da viúva a fofoca de que ele anda enfiado na casa de Lydgate conversando com Rosy dia e noite. Mas, novamente, eles recaem na mesma punheta emocional de sempre: “ai, como tu é bom, honrado e incompreendido; e “ai, eu não vou ficar contigo por dinheiro, mesmo gostando de ti” e blá-blá-blá. Provavelmente acabarão juntos, levando uma vida infeliz para sempre.

Assim, neste ponto da narrativa, temos os três casais protagonistas nas seguintes situações: Will e Dorothea presos nessa punheta sentimental eterna; Lydgate e Rosy em crise por causa do endividamento dele e da dondoquice dela; e Fred trabalhando com Caleb na tentativa de finalmente se casar com Mary.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Middlemarch – Parte 5 – A Letra Morta

 


O capítulo - que já dá um spoiler no título - começa devagar, mas depois dá uma (boa) melhorada. Primeiro, Dorothea vai atrás de Lydgate para saber a real situação do marido. A essa altura, Rosy já está casada com o médico e, chegando lá, ela encontra acidentalmente Ladislaw; mas, como Lydgate não está em casa, ela segue para o hospital. Após deixar a casa, Ladislaw faz elogios rasgados para Dorothea, fazendo com que Rosy desconfie que ele gosta dela. A frieza de Dorothea também faz com que ele se dê conta da proibição que Casaubon havia feito contra ele.

A partir da conversa entre Dorothea e Lydgate, ela se compromete a ajudar o hospital com doações anuais, após o médico contar sobre o boicote que vem sofrendo dos figurões de Middlemarch. Então, começa um trecho longo que basicamente foca no contraste entre as ideias inovadoras na medicina trazidas por Lydgate e a sociedade conservadora local, como, por exemplo, quando contam que o médico chegou a solicitar à família de uma senhora falecida permissão para usar o cadáver dela para estudos (um escândalo!). Daí, parte-se para o conflito entre reformistas e conservadores, tendo como base o caso do médico, inclusive pelo fato de Lydgate ter ressalvas para receitar remédios. Também fica clara a amizade de Ladislaw com Lydgate e, por extensão, com Rosy. Além disso, é revelado que Rosamond esperava um bebê, e o médico andava estressado pelas dívidas adquiridas para que eles se casassem.

O negócio esquenta novamente quando Will Ladislaw tem a ideia de aparecer à missa nas vizinhanças de Casaubon, pensando que era um homem livre e poderia ir onde quisesse, mas com a clara intenção de ver Dorothea e provocar Casaubon. Depois da cena dramática em que os personagens se cruzam rapidamente, Casaubon pede que Dorothea diga se pode prometer algo que ele lhe pedisse sobre o seu pós-morte. Enquanto ela pensa que ele irá falar algo sobre trabalho, ele está preocupado com as intenções de Will de ocupar o seu lugar. Há um drama geral, e ela fica de responder no dia seguinte.

Após quase não dormir, exausta, ela vai encontrar o marido, que diz que vai até certo local e que é para ela aparecer depois de um tempo. Cansada, ela vai decidida a dizer que topa fazer o que ele pedir, mas, ao chegar lá, ele está de cabeça baixa. Aí surge uma das melhores frases que eu já li para descrever que uma pessoa havia morrido: “Porém, o silêncio nos ouvidos de seu marido nunca mais seria interrompido” (p. 499).

E aí o negócio esquenta de novo, pois Casaubon é enterrado, mas Sir James Chettam (marido de Celia, que a essa altura já tem um filho) tenta convencer o Sr. Brooke a despachar Ladislaw, pois eles haviam encontrado, junto com o testamento, um adendo - que inicialmente não é revelado, mas que antecipo aqui - segundo o qual, se Dorothea se casasse especificamente com Will, ela perderia o direito à herança da propriedade. Mais à frente, ainda no capítulo, isso terá reflexos: a família de Dorothea fica puta com o defunto (pois isso abre brecha para fofocas de que ela tinha um caso com Will enquanto era casada) e também faz com que Will se sinta ofendido, pois, se ele casasse com Dorothea, além dos fuxicos, passaria por um homem pobre que quer casar com mulher rica por interesse. Claro que tudo isso não ocorre assim, tão rapidamente, e ocupa páginas e páginas que eu resumi aqui nessas mal traçadas linhas.

Por outro lado, Dorothea precisa indicar alguém para a igreja do povoado para ocupar o lugar do finado marido e, seguindo o conselho de Lydgate, ela indica Farebrother (o mesmo que havia sido deixado de lado para ser o pároco remunerado do hospital). Assim, ele fica feliz, pois finalmente vai ter uma boa renda e vai poder deixar o jogo de lado.

Aqui antecipo outra história, que no livro aparece mais para frente: Fred volta à cena, pedindo para Farebrother ajudá-lo na questão de se casar com Mary. O impasse é o seguinte: ele se forma - acho que em teologia - mas não quer seguir na igreja. Contudo, como o pai insiste que ele dê um jeito na vida, ele revela ao pároco que, se Mary concordar em se casar com ele, mesmo se ele virar pároco, ele encararia a profissão. Acontece que, antes disso, a família de Farebrother estava insistindo para que, com sua nova condição, ele pedisse a mão de Mary. Enfim, Farebrother vai lá e expõe a situação de Fred para Mary, que, em outras palavras, diz que só casa com ele se ele não seguir carreira na igreja. Farebrother ainda dá uma tenteada para saber se ela se casaria com outra pessoa além de Fred, mas ela diz que não, sem jeito, até desconfiando das intenções do religioso. A cena encerra assim: Mary dá esperanças para Fred, desde que ele dê um jeito na vida primeiro, mas sem trabalhar na igreja.

Aí chega a questão política do Sr. Brooke. Ele faz um discurso cômico (mencionado no prefácio do livro), em que é vaiado e ridicularizado - tudo gira em torno da p. 520. Falando com seus vícios de linguagem, ele se perde e termina com o público vaiando e atirando ovos nele. Como resultado, ele desiste de se candidatar a uma vaga no Parlamento e, ao mesmo tempo, desiste do jornal O Pioneiro e de Ladislaw enquanto seu mentor intelectual - inclusive insiste para que Will vá embora. Mas, sacando os motivos do Sr. Brooke e dos demais, Will acaba tendo ainda mais vontade de ficar, mesmo sem o emprego de jornalista. Ele está desesperançoso quanto a Dorothea, mas, em uma breve reflexão, tem a ideia de “pedir” um prazo de uns cinco anos para dar um jeito na vida e, se ela topar, ele ficaria. Assim, ele é deixado de lado aqui na narrativa.

Refletindo, minha impressão é a seguinte: Dorothea e Will têm em torno de 20 anos, são jovens e desmiolados. Dorothea inicialmente é apresentada como uma figura feminina diferente, com gostos distintos das demais moças, algo com um que de revolucionário, etc., mas logo se revela uma figura muito caricata da adolescente rebelde que só se mete em furada quando o assunto é romance. Ela primeiro se apaixona e se casa com um homem bem mais velho e, então, rapidamente se dá conta da merda que fez. Fica viúva e vai caindo como um patinho (exatamente como Casaubon temia) nos papos de Will, que também é um rebelde que só sabe agir pela emoção. Caso fiquem juntos, na minha imaginação, levariam igualmente um resto de vida infeliz, pois tomam decisões movidas pela emoção e, mais adiante, isso tende a se transformar em frustrações profundas...

E, agora sim, aparece um novo enigma na narrativa. O padrasto de Rigg (o filho bastardo do velho Peter) reaparece. Acontece que Rigg vendeu a propriedade do velho para o Sr. Bulstrode - o que causou revolta na família do finado Peter Featherstone. Mas isso pouco importa. Ele vendeu porque o sonho dele é trabalhar com câmbio, vendendo ouro. E aí reaparece o Sr. Raffles - mais uma vez bonachão e provocador. Dá a entender que a mãe de Rigg faleceu e que agora o Sr. Raffles está viúvo. Fica claro que ele sabe algo do passado do manda-chuva de Middlemarch, o Sr. Bulstrode.

Pela conversa dos dois, é revelado que o banqueiro, no passado, pagou para o Sr. Raffles ir embora para a América. Eles não se viam havia cerca de 20 anos. Raffles revela, por cima, que Bulstrode deu um golpe do baú numa velha viúva e tinha uma enteada perdida por aí. Parece que a família dele não sabe disso (a esposa e as filhas, por exemplo). E Ladislaw tem algum parentesco com Bulstrode (talvez seja o pai dele — isso fica no ar no final do capítulo). Em resumo, ele chantageia Bulstrode, mas o velho banqueiro oscila entre aceitar e não, acabando por oferecer um pagamento trimestral para que Raffles fique longe. Ele dá risada da proposta e pede apenas 200 libras para sumir por um tempo, ao que o banqueiro aceita, já exausto.

Acontece que o Sr. Raffles não sabe que Ladislaw está nas redondezas; então, provavelmente algo nesse sentido vai acontecer mais à frente. Enfim, a cena final do encontro entre os dois é muito boa, pois vai despertando várias curiosidades e sentimentos em quem lê: afinal, Bulstrode até então era apontado como o ricaço intocável que dava as cartas em Middlemarch e, de repente, está nas mãos de um charlatão beberrão que adora provocar. Inclusive, para cada frase de arrogância de Bulstrode, o Sr. Raffles solta uma nova tirada, o que chega a fazer o leitor ter simpatia pelo mentecapto.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Middlemarch – Parte 4 – Três problemas amorosos


 

Não vou me preocupar em contar e apontar quais são os três problemas amorosos. O fato é que, chegando na metade da narrativa, alguns enigmas vão sendo resolvidos, enquanto surgem novos. Primeiro, é resolvida a questão da herança do velho Peter Featherstone. Estão todos lá para o enterro e, então, dois irmãos e o advogado sobem para o quarto para pegar o testamento e voltam com os dois documentos encontrados. O primeiro - mais antigo - divide os bens e o dinheiro dele entre vários parentes, sendo que uma boa grana vai para Fred. Contudo, as terras vão todas para o tal de Rigg, descrito como se parecesse um sapo e que, mais tarde, é revelado ser um filho bastardo do velho. Mas, como o segundo testamento não foi queimado por Mary, como o velho pediu no leito de morte, é ele que fica valendo, por ser o mais atual. Nele, são divididas apenas ninharias entre os parentes (incluindo Fred) e todo o resto vai para o filho bastardo, que ainda deve acrescentar Featherstone ao seu sobrenome.

Fim de questão. Todos ficam putos e Mary fica meio encabulada, pois, no fim, ela acabou ferrando Fred (numa “vingança” sem querer por ele ter acabado financeiramente com a família dela). Mas o que ela passa a sentir é remorso - até porque, se Fred tivesse recebido o dinheiro do primeiro testamento, teria como quitar a dívida com a família de Mary.

Então, o prefeito, pai de Rosy e de Fred, também fica de mau humor e diz pro guri dar um jeito na vida, pois não herdou porra nenhuma do velho e, no embalo, se posiciona contra o casamento de Rosy com Lydgate, que ele havia aceitado de bom grado anteriormente. Mas, sobre o casamento, logo Rosy e a mulher o convencem o Sr. Vincy do contrário - porém ele segue deprimido, com a postura de: “então casem, só não me peçam um centavo”.

Bom, o resto do resumo não vai seguir a ordem cronológica do livro, pois vou escrever conforme for lembrando. Primeiro, o casamento entre Rosy e Lydgate avança, marcado para ocorrer em seis semanas a contar da morte do velho. O padrasto do tal de Rigg, o herdeiro, aparece querendo um pedaço da herança, mas é enxotado pelo enteado, pois ele apanhava do padrasto quando era criança. O sujeito sai rindo, sendo xingado, além de ser advertido para não chegar mais perto de sua mãe - pelo jeito, é um gigolô malandro.

Aí Fred fica naquelas de ter que achar o que estudar: cresce a pressão para ser padre, mas ele não quer, enquanto o seu casinho com Mary dá uma esfriada (mais para o final do capítulo, a família de Mary conta para o pároco que ela não queimou o segundo testamento, e fica a dúvida se ele vai fazer fofoca para o Fred, mesmo tendo pedido segredo). Rosy fica noiva de Lydgate.

E aí as duas novas tramas: primeiro, envolvendo o Sr. Brooke e o seu desejo de ingressar na política. Outros personagens, como o Sr. James, tentam interferir, tentando fazer com que ele desista. Além disso, o Sr. Brook contratou Will (sobrinho de Casaubon) para ser jornalista do jornal que ele comprou. Casaubon — volto nele daqui a pouco — diz para ele desistir da empreitada, mas Will não segue o conselho intimidatório do tio (que, na verdade, é primo em segundo grau).

Voltando ao Sr. Brooke: ele está firme com a história de se candidatar, e os outros estão firmes em tentar fazê-lo desistir. Pelo que entendi, o medo é que, além de jogar o nome na lama nos embates políticos, ele ainda perca dinheiro e deixe as fazendas de que é dono (mas que “empresta” para outros administrarem) ainda piores do que já estão. Numa dessas, o Sr. James escreve para Caleb Garth (pai de Mary e das outras crianças) dizendo que o Sr. Brooke quer que ele assuma duas grandes fazendas e um bom pedaço de terra - o que lhe renderia um belo salário que resolveria seus problemas financeiros.

Eu suspeito que tal proposta foi feita sem o conhecimento do Sr. Brooke, numa das manobras que Sr. James e outros estão fazendo para tentar forçar o Sr. Brooke a desistir da candidatura. E, ao mesmo tempo, Mary tinha recebido uma proposta para ser professora em outra cidade, que ela iria aceitar, mas o pai a convence a desistir, pois não vai mais ser necessário fazer tal sacrifício em nome da família, afinal, eles logo serão “ricos” com o emprego de Caleb nas fazendas. Acontece que, se não for verdade a proposta, eles vão estar mais ferrados que nunca. E, empolgados pela notícia, eles também mandam o pároco dizer para que Fred não se preocupe, pois rapidamente irão conseguir repor o dinheiro perdido por ele… Esse é um dos enigmas que ficou em aberto.

 

O outro, mais para o final, envolve o casal Casaubon. Como já mencionado, o Sr. Casaubon está doente. Contudo, em outra parte do capítulo, Will faz movimentos de aproximação a Dorothea e ele percebe isso e, assim, acontece o embate em que Casaubon solicita que Will desista e não aceite o emprego como jornalista. Enfim, não vou me aprofundar nesse embate, em que Will consegue a simpatia de Dorothea e tal, mas, em certo trecho, o Sr. Casaubon reflete e fica claro que ele saca tudo: o interesse de Will em Dorothea e como ela, ingenuamente, estava caindo na dele - além da preocupação com a própria saúde.

Assim, ele chama Lydgate para “passar a real” sobre a saúde, e o médico explica que não tem como prever, mas que é grave e pode ocorrer morte repentina. Casaubon, então, parece focado em afastar Dorothea de Will (a essa altura ele já proibiu o parente de pisar na sua casa), pois saca que ele quer matar dois coelhos com uma cartada: ficar com a mulher e com as posses dele assim que ele bater as botas. Contudo, ele não se aproxima da esposa, que começa a se sentir frustrada e com raiva do marido.

E termina com os dois, cada um vivendo seus pensamentos: ele, percebendo a “conspiração” de Will e vendo como Dorothea está caindo como uma patinha; e ela, com raiva do marido que não se aproxima, não quer saber o que ela pensa e nunca leva em consideração as vontdes e sentimentos dela para nada.

E, assim, termina a quarta parte, chegando na metade do romance. Provavelmente esqueci de outras histórias paralelas e detalhes, mas, enfim, não posso fazer um resumo de 300 páginas de um livro de 900…

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Middlemarch – Parte 3 – À espera da morte

Esse capítulo revela muitas coisas, mas também faz mistério com a questão da morte, colocando três personagens em situação de doença grave. Contudo, antes disso, começa com um novo drama: Fred, que havia gastado dinheiro com diversão andando a cavalo, mas “estragando”, ou seja, machucando o cavalo do sujeito que fornece cavalos para os jovens se divertirem, acaba adquirindo uma dívida grande. Sem ter de onde tirar recursos — e com a certeza de que seu pai não apenas não iria emprestar, mas ainda lhe passaria um sermão — ele acaba pedindo dinheiro emprestado para o pai de Mary Garth, o pobre Caleb Garth, um trabalhador braçal que muitas vezes faz serviços sem cobrar. A família Garth vive sempre apertada e o dinheiro que tem guardado é para pagar os estudos do filho mais velho.

Bueno, Caleb assina uma promissória para Fred, que tem a ideia de vender o seu cavalo numa feira. Mas, como seu cavalo não pagaria todo o valor, ele pensa em trocar o seu cavalo por um de maior valor (sabendo que havia um conhecido interessado) — pagando a diferença — e, assim, conseguir o valor total da dívida. Acontece que o cavalo que Fred adquire é chucro e, em resumo, ele fica com um cavalo imprestável e com apenas 50 libras (a dívida é de mais de 100). Assim, ele acaba tendo que ir confessar a Caleb, a poucos dias de vencer a promissória, que não teria como conseguir o dinheiro. E conta isso na frente da esposa dele, que não sabia de nada. Em resumo, ele ferra com a família toda. Depois, vai contar para Mary e aí rola uma discussão, choro etc. Mas, em resumo, esse é um novo drama que aparece. O velho Featherstone ouve a conversa e diz para que Mary peça a Fred que fale com ele no dia seguinte.

Contudo, nesse meio-tempo, Fred fica doente e o médico da família acaba não dando tanta bola e não volta no dia seguinte. Aí chamam Lydgate, que diagnostica febre tifóide. A família fica braba com o outro médico e o troca por Lydgate. Esse é o primeiro “moribundo”, mas logo ele se recupera e fica de canto até o final do capítulo, praticamente. O enredo fica mais pesado entre Lydgate e Rosy, pois surge a fofoca de que eles estão de casinho, e então uma das tias de Rosy enquadra Lydgate: ou caga ou sai da moita. Então, Lydgate se afasta momentaneamente de Rosy.

Mas aí aparece o segundo moribundo. Volta à cena o casal Casaubon. Ao receber carta de Will — que manda uma para Dorothea e outra para o Sr. Casaubon — o casal discute, pois ele diz que está muito ocupado e não poderá receber a visita do sobrinho. Dorothea meio que se irrita e, então, ele tem um enfarte. Lydgate é chamado e, resumindo, diz a Dorothea que o marido pode morrer a qualquer momento se não se cuidar — precisa trabalhar menos e se distrair mais. Enfim, eles também ficam “em suspenso” nessa situação da narrativa. Ah, e Celia está comprometida com Sir James que, ao saber da doença de Casaubon, pensa: “eu sabia, mas mesmo assim vou seguir amigo e cordial com Dorothea”.

No meio da história toda, outra pessoa fica doente e, enquanto Lydgate vai visitar a casa da família Vincy, ele se encontra com Rosy e, depois dela chorar e ele beijar todas as suas lágrimas, eles finalmente se comprometem. No dia seguinte, Lydgate pede a mão para o Sr. Vincy, que está alegre pois o velho Featherstone está à beira da morte, e ele conta com a herança dele para Fred — e dá a mão da filha sem maiores cerimônias.

E então chega a parte final do capítulo com o terceiro moribundo: o Sr. Featherstone. Aí se revela que Mary Garth é sobrinha da primeira esposa dele (ele foi casado duas vezes, as esposas faleceram e ele não teve filhos). E a questão toda é: para quem o velho vai deixar a herança? Aparecem parentes de tudo que é lado, mas os que mais reivindicam são o irmão e a irmã do velho. A cena toda é muito cômica, pois uma legião de parentes acampa lá, mas ele não quer ver ninguém e recebe apenas Mary no leito de morte. Em certo momento, os irmãos e mais alguns sobem para espiar o velho e são tocados a bengaladas e xingamentos. Alguns apostam que a herança será dada a Mary, outros a Fred e outros aos parentes — pois “não seria coisa do Todo-Poderoso deixar a família de fora”.

Na cena final, o velho pede para Mary abrir o cofre e queimar um dos dois testamentos que ele escreveu. Ela se nega. Ele não consegue levantar da cama e oferece dinheiro a ela para fazer isso. Ela se nega de novo, pois não quer ficar como suspeita de nada. Ele se irrita mais e, resumindo, na manhã seguinte ele está morto, deixando o seguinte dilema: há dois testamentos no cofre — quais são eles e qual vai valer? Provavelmente vai ter muita briga pela frente. E temos agora três casais formados: o casal Casaubon, mas com Dorothea cercada de pretendentes e o marido doente; o casal Lydgate e Rosy; e um que está quase se formando, Fred e Mary. Aguardemos os próximos capítulos em 2026.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Middlemarch – Parte 2 – Velhos e jovens



Esqueci de mencionar anteriormente que cada parte é um “livro”, algo como um capítulo maior, enquanto os capítulos numerados são espécies de “subcapítulos”. No total são oito; então serão oito textos, cada um resumindo um desses livros — mas já no segundo percebo que são, na verdade, a continuação das histórias dos personagens.

Na segunda parte, que começa na p. 141, segue o dilema de Fred e sobre como ele vai conseguir a carta de Bulstrode para entregar a Featherstone. Bulstrode é um banqueiro poderoso, quase dono da cidade por decidir para quem dá — ou não — crédito, tendo boa parte de Middlemarch endividada com ele. Declara-se super religioso e tudo é “em nome de Deus” — inclusive os seus lucros e o seu poder.

Bulstrode é casado com a irmã do sr. Vincy, pai de Fred. Resumindo o encontro entre eles para resolver a carta: o sr. Bulstrode não tem Fred em alta conta. Considera-o um jovem relapso, sem responsabilidade, que vive se endividando — e, por isso, inclina-se a não escrever a tal carta. O sr. Vincy vai argumentando, insistindo, quase discutem, porque o futuro do filho está em jogo. Termina com a “última cartada”: lembra Bulstrode de que, se não ajudar, sua mulher (irmã de Vincy) ficará zangada. E funciona. Ele promete conversar com a esposa e, no dia seguinte, envia a carta para que Fred a leve ao sr. Featherstone.

Contudo, o sr. Featherstone é um velho ranzinza e ri dos argumentos de Bulstrode na carta, deixando Fred nervoso. Dá uma boa zoada nele antes de, finalmente, entregar o dinheiro prometido — mas não garante que o colocará como herdeiro. Fred, que tem 23 anos, fica tão perturbado que sente alívio quando é dispensado pelo velho, que ainda pede para que ele jogue a carta na lareira. Ao chegar em casa, entrega boa parte do dinheiro para a mãe guardar, para não gastar (fica no ar o motivo de guardar esse valor). Ah — também se confirma que ele está apaixonado por Mary, uma espécie de empregada direta do sr. Featherstone, descrita como feia e pobre:

“Assim como muitos jovens cavalheiros ociosos e espirituosos, ele estava completamente apaixonado, e por uma moça desenxabida, que não tinha dinheiro” (p. 158).

Depois, vem um longo capítulo contando a história do médico Lydgate, o forasteiro de Middlemarch: como se formou e como viveu sua única paixão, em Paris — a história de uma atriz que mata o marido no palco. Ele vai atrás dela, completamente apaixonado, até que ela se cansa e confessa que matou o marido de propósito porque não aguentava mais a vida de casada.

Também fica claro qual era o plano de Lydgate:

“Tal era o plano de Lydgate para o seu futuro: prestar um serviço bom e pequeno para Middlemarch, e um grande serviço para o mundo” (p. 167).

Ou seja: ele vai para o vilarejo para fazer um trabalho revolucionário na medicina, sem se envolver nas intrigas da cidade pequena. Mas logo é colocado numa situação que vira boa parte da trama desta parte: o hospital vai passar a remunerar o capelão (o clérigo que conversa com os pacientes). O atual é meio relapso (viciado em jogos, por exemplo), mas é gente boa e trabalha de graça há bastante tempo. O indicado por Bulstrode, por outro lado, é mais religioso e profissional.

Fica o dilema: fazer “justiça” e efetivar quem já vinha trabalhando de graça, com salário — ou colocar alguém mais competente e remunerado? O conselho é formado pelos figurões da cidade, incluindo o sr. Brooke e outros; entre os médicos está Lydgate, que não queria tomar partido nas tretas locais. Ele fica ainda mais dividido depois de jantar na casa do antigo clérigo, sr. Farebrother, percebendo que é um bom sujeito e precisa do salário. Mas também é avisado que, se votar contra Bulstrode, entrará na lista de inimigos do banqueiro.

A discussão é longa, vários personagens aparecem — mas, resumindo: o indicado por Bulstrode, o sr. Tyke, é eleito, contando inclusive com os votos do sr. Brooke e de Lydgate.

Bueno, digamos que essa é a primeira parte deste “livro”. Depois, volta para a história da lua de mel do sr. Casaubon com Dorothea. Um resumo bem resumido: eles estão em Roma, onde o sr. Casaubon passa mais tempo estudando no Vaticano do que com a esposa. Dorothea começa a ter crises e percebe que o casamento não era o que pensava.

Um primo de segundo grau bem mais novo (tratado como sobrinho), chamado Will, vê Dorothea quando está com um amigo alemão, artista. Tanto Will quanto o amigo, Naumann, apaixonam-se por ela e, daí em diante, ficam armando situações para estar com ela — muitas vezes junto do próprio sr. Casaubon, que Will chama de tio, mas diz ao amigo que detesta. Entre Will e o alemão, um tenta passar o outro para ficar mais tempo com Dorothea.

Ao final, Will encontra Dorothea enquanto Casaubon está estudando e diz que vai voltar à Inglaterra para “tomar jeito na vida”. Ao mesmo tempo, planta algumas dúvidas na cabeça dela sobre a suposta superioridade intelectual do marido. Ele está perdidamente apaixonado, e ela, ingenuamente, acha que ele é apenas um sobrinho inocente do marido, perdido no mundo.

O capítulo termina com o fim da lua de mel: o casal e o sobrinho Will voltam para a Inglaterra, separadamente, claro.

Por fim, o que deu para sacar até o fim da segunda parte, na p.245, é que são dois "casais" protagonista: Sr. Casaubon e Dorothea e Lydgate e Rosy, sendo que o segundo, por enquanto, ainda é platônico.